Sobre

A vida é uma experiência solitária. Os eventos vividos e os sentidos que damos a eles são únicos e não podem ser compartilhados de todo. Por mais íntima que seja uma relação haverá sempre uma distância entre o que se conhece do outro e o que o outro é. O esforço em ver o mundo com os olhos do outro e permitir que o outro nos veja com nossos olhos é legítimo e necessário. Mas sua plena realização impossível.
Essa construção que nunca se completa termina abruptamente, sem termos consciência do que foi ela passa.

“Tu sejas, tão-somente, o fim:
“— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”

Diante desta experiência única, finita e cujo sentido tentamos construir num esforço quase inútil, nos sentimos atônitos. Quem nunca ficou pasmo diante da morte próxima, de uma paixão que irrompe do nada, de um relacionamento que acaba, de uma grande tragédia, dos absurdos do cotidiano.
Desespero Desesperamos, hesitamos.angústia

“A angústia
A angústia existencial decorre da consciência de que são as escolhas dessa pessoa que definem o que ela é ou se tornará. A “angústia” decorre, portanto, da consciência da liberdade e do receio de usar essa liberdade de forma errada.
É muito mais fácil acreditar que existe um plano, um propósito no universo, e que nossos atos são guiados por uma mão invisível em direção a esse propósito. Neste caso, meus atos não seriam responsabilidade minha, mas apenas o meu papel em um roteiro maior. Mas não há um propósito ou um destino universal e o homem diante desta constatação se desalenta. O desalento é a constatação de que nada fora de nós define nosso próprio futuro. Apenas nossa liberdade.”
Sartre em Wikipedia PT

Por vezes esse espanto nos leva a desejar o fim, mas em outras nos estimula a buscar respostas, a repetir a experiência, a conceber alternativas. O que é a arte, a filosofia e a ciência senão formas de responder a esta perplexidade. O que é viver senão navegar por esses caminhos tortuosos.

Mas horas há que marcam fundo…
Feitas, em cada um de nós,
Da eternidade de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Apesar de única e pessoal ainda existem algumas poucas coisas dessa experiência solitária que podem ser compartilhadas, e essas são essenciais. Uma delas é essa perplexidade diante da vida, esse espanto diante disso que nos envolve, nos cria, torce, derruba, aniquila, aquece; dessa experiência que apresenta uma face diferente a cada olhar e cuja essência não conseguimos capturar.
Meu objetivo aqui é tentar traduzir minha própria perplexidade. Como disse no início é impossível compartilhar de forma exaustiva esse sentimento, mas lançaremos alguns fragmentos para que os leitores reconstruam com base em seus próprios dilemas.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel
Manuel Bandeira

Vida na Terra













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